RESENHA │ Anne da Ilha, Lucy Maud Montgomery

Anne da Ilha é o terceiro livro da coleção de Anne de Green Gables, que narra a vida da nossa protagonista dos 18 aos 22 anos. Quem leu minha resenha sobre o segundo livro, Anne de Avonlea, sabe que eu não gostei tanto quanto o primeiro e achei a história um pouco enrolada. E depois de ler o terceiro, realmente acho que a autora deixou um pouco a desejar no anterior.

Nesse livro a história é bem mais envolvente e fluída, sendo melhor desenvolvida e me prendeu bem mais durante a leitura. Agora acompanhamos uma Anne mais madura, que está na fase final daquela virada para vida adulta, entendendo algumas coisas que antes não lhe eram familiares e sentindo um pouco da responsabilidade de crescer. Logo nos primeiros capítulos acompanhamos Anne, Gilbert e Charlie Sloane partirem para Redmond College, em Kingsport, em busca de seus sonhos e suas ambições, e no decorrer das páginas acompanhamos suas vidas nesse novo local.

Assim como nas obras anteriores, a autora deixa nas entrelinhas – e às vezes de forma mais explicita – o feminismo da época (mesmo que em alguns momento ela peque nesse sentido, com alguns comentários um tanto desnecessários, que quebram a expectativa daquele protagonismo feminino que Anne representa). Anne é a primeira mulher de Avonlea a ir para a universidade, e claro que isso incomoda certas cidadãs que não tem absolutamente nada para fazer que não seja julgar as escolhas alheias. Mas, mesmo assim, a protagonista está decidida a ir em busca daquilo que almeja para sua vida, não abrindo mão de sua liberdade e não se deixa desmotivar por certos comentários maldosos – mesmo que às vezes ela precise de um rápido lembrete, que sorte a dela que Gilbert sempre tem os melhores conselhos.

“Ousar qualquer coisa que nunca ousaram parece-lhes um terrível pecado. Você é a primeira moça de Avonlea a ir para a universidade, e sabe muito bem que o pioneiros são, geralmente, considerados loucos.”

Esse livro foca bastante nas relações de Anne e em como, com o seu amadurecimento, mudanças chegam para transformar sua vida. E não apenas a vida da protagonista está diferente, mas todos os nossos queridos personagens (considero todos eles amigos) também estão mudando, crescendo e se abrindo para a vida adulta – o que é normal da vida, o tempo passa e as pessoas mudam. Anne agora tem um olhar mais maduro em relação aqueles a sua volta, como por exemplo sua relação com Diana, que vemos se tornar uma mulher durante essa terceira obra. É como se uma amiga minha de infância estivesse se casando e tendo o primeiro filho…

E com isso acompanhamos também as amizades que Anne cria em seus anos da faculdade, como Priscila e Stella, que já são nossas conhecidas dos anos da Queen’s, e uma das novas personagens que foi introduzida, Phillipa. Admito que logo que ela entrou em cena eu pensei “eu nunca vou conseguir gostar dessa menina” e três capítulos depois eu já estava apaixonada e querendo conhecer mais dessa figura tão diferente. E é bem divertido acompanhar o grupo e seus anos morando juntas!

Essas relações exploradas em Anne da Ilha não ficam apenas no âmbito da amizade, nós podemos ver uma amadurecimento da personagem em relação ao amor. É normal, ainda mais para uma criança imaginativa que nem a nossa protagonista, que se tenha uma visão idealizada  – e por vezes romantizada – desse sentimento. E certamente Anne sonhava com seu príncipe encantado, pedidos de casamento super românticos, negações elaborada com discursos já prontos… Mas a vida não é exatamente assim e nem sempre ocorre como repassamos mil vezes em nossas cabeças. E isso foi muito bem construído e colocado na narrativa. É tão crível e tão palpável aqueles pensamentos e ideais de Anne, que conseguimos nos identificar com muita facilidade, princialmente aqueles que já passaram por essa curva na estrada.

“Há muito no mundo para todos nós, se apenas tivermos olhos para ver, coração para amar e mãos para agarrar…”

E, como uma boa defensora do amor, meu coração doeu quando Anne nega o pedido de Gilbert e queria poder entrar no livro e sacudi-la para que percebesse que ela ama ele SIM! Todo mundo já sabe, menos ela…

O livro é narrado em terceira pessoa e permanece com uma linguagem bem simples, mesmo sendo um romance de época, o que deixa a leitura muito tranquila. Além disso, outra característica da obra: Tudo sempre vai dar certo! Entendo que seja o estilo de escrita da época, e mesmo com alguns empecilhos no decorrer das páginas, no final coisas milagrosas sempre acontecem para tudo acontecer como deveria.

Anne não tem dinheiro para ir para a universidade no próximo ano? A tia Josephine morreu e deixou para ela uma arte de sua herança. Agora ela pode voltar para terminar os estudos.

Anne e suas amigas querem muito morar em uma casa no bairro mais rico da cidade mas não tem dinheiro para pagar? A casa é de duas senhoras muito simpáticas, e ricas, que aceitam o que elas podem pagar. Agora elas podem morar os últimos anos da faculdade na Casa da Patty.

E por aí vai… São coisas pouco críveis e, por mais que eu entenda o estilo da narrativa e abrace a história, não podia deixar de pontuar.

Algo nos livros que gosto muito e acho muito interessante – e fofo – é a relação que Anne tem com Green Gables, como lugar mesmo. Lá foi o primeiro lugar do mundo onde ela se sentiu querida e amada pela primeira vez, onde ela achou seu senso de pertencimento. E agora não importa onde o mundo vai levá-la, Green Gables sempre será seu lar, com suas cores, aromas e sensações familiares.

“Amor fiel e terno, como nunca encontrarei em nenhum outro lugar do mundo. É o amor que me espera por lá e é por causa dele que eu estou voltando para casa. E é isso que faz da minha imagem uma obra-prima, mesmo que as cores não sejam tão brilhantes.”

Como já comente, Anne da Ilha aborda muito as mudanças da vida, e com isso, traz bastante a ideia de que as coisas são mutáveis e finitas. Um desses momentos da obra é a morte de Ruby, tão jovem, tão bonita e com tantos caminhos pela frente, mas que acabou deixando o mundo cedo de mais. E a vida é assim, não pode ser domada nem prevista. No livro a personagem não tem tanta importância, mas para aqueles que viram a série e não conseguem desvencilhar uma coisa da outra, o coração aperta ao ler sobre a morte daquela amiga querida… Outro exemplo da marca do passar do tempo e da finitude da nossa existência, é quando derrubam a Rainha das Neves,  a cerejeira que ficava na janela do quarto de Anne em Green Gables – que marca também uma etapa da vida da protagonista. E nessa finitude da vida, em que muitas vezes nos vemos impotentes, Anne assim como nós, precisou sentir o gosto da quase perda para finalmente se dar conta de que Gilbert era o amor de sua vida, e para minha alegria, o livro acaba de uma forma perfeita com os dois finalmente juntos!

E ainda, ao mesmo tempo que o livro fala muito sobre futuro, em certo ponto Anne é transportada para o passado quando retorna junto com Phillipa para sua cidade natal. Lá ela encontra umas cartas de seus pais, e confesso que essa parte da obra, mesmo sendo breve, mexeu muito comigo: Anne é uma órfã que pela primeira vez tem algo concreto, palavras de amor, daqueles que a trouxeram ao mundo! E isso se torna um de seus bens mais preciosos. As cartas são a maneira que ela encontra de se sentir próxima de seus pais e descobrir que ela era sim muito amada – “Amo nossa filha quando está adormecida e a amo mais ainda quando está acordada -, expressou Bertha Shirley no pós-escrito.

Como sempre, vários novos personagens vão cruzando o caminho de Anne – acho incrível a quantidade de personagens que Montgomey é capaz de criar – e de alguma forma mudando sua vida ou tendo a vida mudada por causa dela. Já estou louca para iniciar a leitura do quarto e continuar essa jornada…


Título: Anne da Ilha
Autora: Lucy Maud Montgomery
Editora: Ciranda Cultural
Ano: 2020
Páginas: 256
Gênero: Romance; Literatura Estrangeira; Ficção; Infantojuvenil
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AVALIAÇÃO:

Avaliação: 4.5 de 5.

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